Budapeste, dividida por um rio, inteira no coração…
Há alguns anos, quando fiz o primeiro rali Paris/Dakar como jornalista, para a SIC, o Philippe Monnet, talvez o melhor co-piloto que conheci, dizia-me: “tu, que gostas de areia, do deserto, de dunas altas, tens de, um dia, conhecer o deserto dos Emirados Árabes.”
A imagem que o Philippe me transmitiu com tanta emoção ficou gravada na minha cabeça. Eu sabia que, assim que pudesse, iria lá parar.
Passaram-se alguns anos, é certo, mas mais vale tarde…
Costumo fazer uma viagem em família na Páscoa e este ano decidimos ir ao Dubai. Não porque tivessemos grandes expetativas em relação ao Emirado Árabe mais badalado, mas porque a minha vontade (quase necessidade) de ir ao deserto era grande e o entusiasmo em dá-lo a conhecer à minha família era maior ainda.
Parti no dia 16, triste como a noite, dois depois da morte inesperada do meu querido Nico. Aliás, nesse dia 16, ia eu para o Dubai e ele para o Brasil (cheio de “inveja” da minha aventura!) participar num filme.
Eu fui, ele não.
Tinha a viagem marcada há algum tempo por isso não podia cancelar tudo à última hora. E, na verdade, ficar em Portugal não iria adiantar nada. Por maior que fosse a minha tristeza, a pouca força anímica, sair só me faria bem. E fez.
Depois de 2 dias no Dubai (cidade sobre a qual aqui falarei um dia destes), partimos em direção ao tal deserto. Fizemo-nos à estrada num carro alugado, guiados por uma voz sexy de uma aplicação de GPS que dá pelo nome de Smart Drive. Infalível! Tínhamos, desde o Dubai, quase 400 km a percorrer, mais de metade deles numa reta rasgada entre dunas, com palmeiras recém plantadas nas bermas (alimentadas por rega automática, um luxo que só o dinheiro que existe naquele pedaço de mundo permite!). Uma estrada linda e, sobretudo, um “aperitivo” delicioso para a magia que nos aguardava.
Tinham-me falado num hotel magnífico, escondido num mar de dunas, a 15 Kms da Arábia Saudita. Um tal de Qasr Al Sarab Desert Resort, da famosa cadeia Anantara.
Antes de ir pesquisei na net e, pelas fotografias e comentários de alguns viajantes, percebi que me esperava uma experiência daquelas que se tem uma vez na vida. Não me enganei!
Depois de passarmos por Abu Dhabi e percorrermos esses quase 300 Kms de reta, a voz sexy mandou-nos virar à esquerda, para uma estrada construída apenas com o propósito de levar os hóspedes ao resort.
E, como uma imagem vale mais do que mil palavras, aqui vos deixo um pequeno vídeo, feito com o iPhone, da minha chegada.
A entrada prometia. E não mentia. Bem pelo contrário: a cada passo que dava percebia que o que me esperava era melhor ainda do que aquilo que todas as fotos mostravam. As minhas filhas e o meu marido, estreantes nas lides do deserto, estavam felizes. E eu também.
Amo o deserto tanto quanto amo o mar, mas as minhas experiências nas areias habitadas por camelos foram sempre de pouco conforto.
Como jornalista a cobrir ralis “tocava-me” o mesmo modus operandi dos pilotos: dormir em tendas ou ao relento, jantar sentada no chão, tomar duches improvisados no meio de nada, com pouca (muito pouca!) água, enfim, em tudo uma “aventura” diferente daquela que tinha agora à frente: um hotel de luxo, maravilhoso, onde nada falta, onde o bom gosto impera. Vilas com piscina privativa, camas XXXL, lençóis macios, casas de banho a lembrarem spas, restaurantes variados com diferentes sabores, uma piscina criada num oásis espiado por centenas de dunas altas, um sonho!
Mas eu, confesso, queria mesmo era sentir a areia. Sentar-me numa daquelas dunas, ouvir o silêncio, ajustar contas com o Nico por ter partido sem avisar…
Assim fiz. Ali, naquele deserto de areia dourada, de certa forma, lavei a alma. Ri, chorei, respirei fundo, senti.
Depois tive ainda tempo para matar saudades do “todo-o-terreno”, a bordo de um jipe do hotel, guiado por um paquistanês, mestre na arte de desbravar dunas.
As minhas filhas estavam em extâse, num misto de medo e excitação, próprios de quem experimenta um mundo desconhecido.
Cheguei ao hotel exausta mas feliz, muito feliz, por a vida me ter dado oportunidade de voltar a um dos lugares que mais amo no mundo: o deserto.
Regresso sempre com a sensação de que parte de mim fica naquele silêncio de ouro. Por isso, prometo voltar. E, desta vez, não foi diferente.
Talvez um dia vá a Atacama… Porque, quando queremos muito uma coisa, geralmente, conseguimos!
FG
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